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Relatório da OIT aponta estagnação global da qualidade do emprego

Relatório da OIT aponta estagnação global da qualidade do emprego
Wilson Dias/arquivo Agência Brasil

Tendências Sociais e do Emprego 2026 indica desemprego estável, avanço lento na redução da pobreza laboral e aumento da informalidade

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) divulgou o relatório Tendências Sociais e do Emprego 2026, que aponta a estagnação da qualidade do emprego no mundo, apesar da estabilidade da economia, e projeta uma taxa global de desemprego de 4,9% em 2026. O documento também identifica riscos associados à inteligência artificial, à incerteza no comércio internacional e às mudanças demográficas, com impactos desiguais entre regiões, faixas etárias e gêneros.

O documento estima que 284 milhões de trabalhadores permanecerão em situação de extrema pobreza, prevê 2,1 bilhões de pessoas em ocupações informais em 2026 e aponta a desaceleração da transição para setores mais produtivos como um dos principais entraves ao avanço do trabalho digno.

O relatório constata que o progresso na melhoria da qualidade do emprego perdeu ritmo nas últimas duas décadas. Entre 2015 e 2025, a proporção de trabalhadores vivendo em extrema pobreza caiu apenas 3,1 pontos percentuais, atingindo 7,9%, ritmo muito inferior ao observado na década anterior, quando a redução foi de cerca de 15 pontos percentuais. Nos países de baixa renda, as taxas de pobreza laboral extrema e moderada avançaram no período, alcançando quase 68% da força de trabalho em 2025.

A análise registra reversão na trajetória de queda da informalidade no mercado global de trabalho. A taxa global subiu 0,3 ponto percentual entre 2015 e 2025, e a OIT projeta que 2,1 bilhões de pessoas estejam em empregos informais em 2026. O crescimento reflete, sobretudo, a expansão do emprego em economias com elevados níveis de informalidade, especialmente na África e no Sul da Ásia, além do avanço do trabalho por conta própria em países de renda baixa e média.

Parte da estagnação é atribuída pelo documento à desaceleração da transformação estrutural das economias. A mobilidade de trabalhadores entre setores caiu pela metade nas últimas duas décadas, limitando a migração para atividades com maior produtividade, formalização e melhores condições de trabalho e contribuindo para enfraquecer o crescimento da produtividade global.

No campo macroeconômico, a OIT aponta estabilidade do desemprego em um contexto de elevada incerteza. A taxa global permaneceu em 4,9% em 2025 e deve seguir nesse patamar até 2027, totalizando cerca de 186 milhões de pessoas desempregadas em 2026. O relatório projeta um contingente de 408 milhões de pessoas em situação de subutilização da força de trabalho e destaca diferenças regionais, com tendência de queda do desemprego na América Latina e no Caribe e aumento esperado na América do Norte.

As mudanças demográficas assumem papel central na dinâmica do mercado de trabalho. O envelhecimento populacional reduz o crescimento da força de trabalho em países de renda alta, enquanto economias de renda mais baixa enfrentam dificuldades para converter o rápido crescimento populacional em empregos produtivos. A OIT projeta crescimento do emprego de 0,5% em países de renda média-alta, 1,8% em países de renda média-baixa e 3,1% em países de renda baixa em 2026, alertando para o desperdício de mão de obra entre a  população em idade produtiva.

O relatório evidencia a persistência das desigualdades de gênero. As mulheres representam cerca de dois quintos do emprego global, com taxa de participação na força de trabalho 24,2 pontos percentuais inferior à dos homens. A OIT observa que a diferença decorre mais de barreiras de acesso ao mercado de trabalho do que de dificuldades de inserção e registra estagnação dos avanços recentes, influenciada por normas sociais e estereótipos.

A situação dos jovens permanece crítica, segundo o documento. O desemprego juvenil atingiu 12,4% em 2025, quando cerca de 257 milhões de jovens estavam fora do emprego, da educação e da formação profissional. As taxas de jovens que não estudam nem trabalham (NEET) alcançaram níveis significativamente mais elevados em países de baixa renda. O relatório identifica riscos adicionais associados à adoção da inteligência artificial, sobretudo para jovens com maior escolaridade que buscam o primeiro emprego em ocupações de alta qualificação, ressaltando, contudo, que os impactos totais ainda exigem monitoramento contínuo.

O comércio internacional segue como fator relevante para o emprego, sustentando aproximadamente 465 milhões de postos de trabalho em 2024. A OIT, no entanto, observa que a incerteza nas políticas comerciais e as reconfigurações das cadeias globais de suprimento tendem a pressionar rendimentos do trabalho e salários reais, com impactos mais intensos em regiões fortemente integradas ao comércio global. Ao mesmo tempo, o relatório aponta que setores ligados às exportações apresentam, em média, menor informalidade e melhores condições de trabalho, especialmente para mulheres e jovens.

A OIT conclui o relatório destacando que, apesar da estabilidade das taxas de desemprego, os déficits de trabalho digno permanecem elevados e podem se intensificar. O documento defende a necessidade de crescimento econômico mais robusto, fortalecimento institucional e políticas coordenadas para enfrentar os efeitos da dívida, da transformação tecnológica e da instabilidade comercial sobre o mercado de trabalho global.

Com informações da OIT

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