Mesmo com 829 nomeações em 2025, país opera com déficit estrutural, enfrenta entraves administrativos e projeta novas perdas com aposentadorias
O Brasil aumentou o número de auditores-fiscais do trabalho em dezembro de 2025, com a posse de 829 aprovados no Concurso Nacional Unificado (CNU), o que elevou o efetivo para cerca de 2,7 mil servidores, o maior patamar da última década. Ainda assim, o país está longe de atingir o patamar mínimo de 5,5 mil profissionais indicado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT). A estimativa da entidade é feita com base na população economicamente ativa superior, atualmente superior a 108 milhões de pessoas. O cenário é reflexo de um déficit histórico, entraves para novas convocações e tem impacto direto na fiscalização de direitos trabalhistas.
Dados oficiais apontam redução contínua do quadro desde os anos 1990, crescimento da informalidade, aumento de denúncias de trabalho escravo e risco de descontinuidade de operações de fiscalização em áreas estratégicas.
O reforço promovido pelo primeiro CNU alterou parcialmente um quadro de retração prolongada. Antes das nomeações, o país contava com cerca de 1,8 mil auditores-fiscais do trabalho. Mesmo com a ampliação, o efetivo permanece inferior ao número de cargos existentes na carreira, estimados em 3,6 mil, e muito abaixo do parâmetro internacional da OIT.
Registros do Painel Estatístico de Pessoal indicam que o maior contingente histórico da carreira ocorreu em 1996, com 3.423 auditores em atividade, após convocações do concurso de 1994. Desde então, aposentadorias e desligamentos reduziram progressivamente a presença do Estado na fiscalização trabalhista, sem reposição equivalente.
O CNU 2024 previa 900 vagas imediatas e outras 900 para cadastro de reserva. A posse de apenas 829 candidatos decorreu de reprovações no curso de formação, eliminações por irregularidades e desistências. O cadastro de reserva reúne cerca de 1.770 nomes, mas novas convocações dependem da publicação de portaria do Ministério do Trabalho e Emprego autorizando a abertura de outro curso de formação.
A tramitação administrativa envolve também o Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, que já autorizou as nomeações iniciais, mas atribuiu ao Ministério do Trabalho a condução das etapas seguintes. Além disso, cerca de 38 candidatos permanecem com a situação judicializada, após decisões liminares que permitiram a permanência no concurso, sem que tenham tomado posse.
A limitação do quadro repercute diretamente na capacidade de fiscalização. Em 2025, aproximadamente 2,7 mil trabalhadores foram resgatados de condições análogas à escravidão, alta de 26,8% em relação a 2024, quando o número foi de 2,1 mil. No mesmo período, as denúncias desse tipo superaram 4,5 mil, o maior volume da série histórica, enquanto o Sistema Ipê registrou cerca de 4,8 mil ocorrências, o maior total dos últimos cinco anos.
O enfraquecimento da inspeção também se reflete na informalidade. Estudo do Ipea, com base na PNAD Contínua de 2024, mostrou que a taxa entre assalariados do setor privado e trabalhadores domésticos atingiu 31,77%, recorde da série, apesar da queda do desemprego para 6,6%, o menor nível desde 2012. Entre 2012 e 2024, o número de trabalhadores desse grupo cresceu 11,4%, enquanto o total de auditores caiu 34,1%, elevando a média de trabalhadores por fiscal de cerca de 19 mil para 34,2 mil.
A área de saúde e segurança do trabalho concentrou outros sinais de pressão. Em 2025, o país contabilizou mais de 803 mil Comunicações de Acidente de Trabalho, quase 10% a mais que em 2024, além de mais de 546 mil afastamentos por transtornos mentais, principalmente ansiedade e depressão, agravos relacionados aos riscos psicossociais incluídos no escopo da fiscalização.
Auditores também alertaram para a interrupção de operações em janeiro de 2026, com o cancelamento de ações e ao menos 78 denúncias sem apuração, cenário associado à escassez de pessoal e a dificuldades operacionais em fiscalizações móveis. O Ministério do Trabalho informou que não houve paralisação generalizada e atribuiu os cancelamentos a limitações pontuais na participação da Polícia Federal.
A pressão pela recomposição ganhou dimensão política. O Ministério do Trabalho solicitou que o Projeto de Lei Orçamentária de 2026 preveja a criação, transformação ou remanejamento de 2 mil cargos, além da convocação integral do cadastro de reserva. Movimentos de auditores reforçaram a demanda e destacaram que, mesmo com novas nomeações, o déficit permanece superior a 50% em relação ao recomendado pela OIT.
Projeções indicam agravamento no curto prazo. Dados de dezembro de 2025 apontam que cerca de 350 auditores recebem abono de permanência e podem se aposentar a qualquer momento, o que tende a neutralizar parte do reforço recente. O último concurso anterior ao CNU foi em 2013 e, desde então, a carreira acumulou mais de 1,2 mil aposentadorias e desligamentos.
Enquanto isso, regiões como Norte e Nordeste concentram vazios de fiscalização, afetando desde atividades agropecuárias em áreas remotas até setores urbanos, como oficinas de costura em grandes capitais. Em 2024, o IBGE estimou 1,65 milhão de crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil, mas ações fiscais identificaram apenas 2.745 casos, evidenciando limitações operacionais da inspeção.
A ampliação promovida pelo CNU evitou a descontinuidade imediata de parte das ações, mas os dados disponíveis indicam que a recomposição parcial não alterou o caráter estrutural do déficit, que segue condicionando a capacidade do Estado de fiscalizar relações de trabalho, prevenir acidentes e coibir violações de direitos.
Com informações do G1.
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