Em entrevista, presidente do TST e do CSJT apontou o enfrentamento ao grande volume de processos como o maior desafio da Justiça do Trabalho
A AMATRA1 receberá, na próxima sexta-feira (5/9), o ministro Aloysio Corrêa da Veiga para uma homenagem na sede da associação, no Rio de Janeiro. Atual presidente do Tribunal Superior do Trabalho (TST) e do Conselho Superior da Justiça do Trabalho (CSJT), o magistrado concedeu entrevista à entidade, em que relembrou a trajetória na magistratura trabalhista e refletiu sobre os desafios contemporâneos da Justiça do Trabalho.
Na conversa, Aloysio destacou a passagem pela AMATRA1, analisou o papel da associação no fortalecimento institucional e comentou a criação de precedentes, que são fundamentais como resposta ao grande volume processual no país.
Formado em Direito pela Universidade Católica de Petrópolis, Aloysio Corrêa da Veiga ingressou na magistratura em 1981, como juiz substituto da 1ª Região. No TRT-1, foi promovido a desembargador em 1997 e, em 2004, tomou posse como ministro do TST, onde presidiu a sexta turma, integrou seções especializadas em dissídios individuais e coletivos e ocupou funções estratégicas na Comissão Permanente de Jurisprudência e no Regimento Interno.
O ministro também exerceu papéis relevantes fora do tribunal. No Conselho Nacional de Justiça (2017-2019), coordenou comissões voltadas à gestão de pessoas, tecnologia e liberdade de imprensa. Foi corregedor-geral da Justiça do Trabalho (2020-2022), vice-presidente do TST e do CSJT (2022-2024) e, em 2024, eleito presidente de ambas as instituições para o biênio 2024-2026.
A homenagem da próxima sexta-feira marcará o reencontro do ministro com a associação em que iniciou sua trajetória institucional.
A seguir, entrevista com o ministro Aloysio Corrêa
AMATRA1: Ao olhar para sua trajetória desde o ingresso na magistratura em 1981 até a presidência do TST, quais momentos considera mais marcantes para sua formação pessoal e profissional??
Aloysio Corrêa: O início da carreira é sempre marcante. A posse como juiz é diferenciada. Esses momentos iniciaram, primeiro, com o companheirismo dos meus amigos, que estão até hoje e fazem parte da minha trajetória e da minha vida.
Enquanto juiz substituto no Rio de Janeiro, jtomei posse para atuar na época nas Juntas de Conciliação e Julgamento, um momento bem intenso, porque havia as etapas da construção do metrô do Rio de Janeiro, e isso fazia com que as Juntas tivessem um grande movimento. A média de cada Junta era de três mil processos por ano. Algumas delas, no interior, tinham um volume ainda maior, como São Gonçalo, que era impressionantemente intenso. Tudo isso fez com que criássemos uma trajetória para dar conta daquele volume, movimentando a nossa vida.
Hoje, minha carreira já tem 44 anos de magistratura, um tempo repleto de momentos paradigmáticos, que culminaram com a presidência do Tribunal Superior do Trabalho.
AMATRA1: O senhor foi presidente da AMATRA1. Qual a importância que essa associação teve em sua carreira e no fortalecimento da magistratura trabalhista?
Aloysio Corrêa: Minha trajetória na associação começou em 1982, quando fui eleito secretário na gestão do presidente Carlos Coelho dos Santos, um grande amigo. A partir daí, participei de várias gestões, como a presidência da Anna Acker, em que, como secretário, enfrentamos momentos importantes como os planos econômicos e o congelamento. Naquela ocasião, tivemos a ousadia de aumentar as mensalidades da associação para poder atuar de forma mais presente. Criamos a sala de lanches no prédio da Antônio Carlos, entre outras iniciativas.
Posteriormente, fui vice-presidente na gestão do juiz Neif Alem Filho. Com a saída dele no curso do mandato, assumi a presidência da associação durante um ano, em um momento muito confuso na região, em que a atuação da AMATRA1 foi fundamental para preservar os interesses de toda a magistratura trabalhista do Rio de Janeiro.
AMATRA1: Sua atuação atravessou desde a docência universitária até funções de destaque no CNJ e no CSJT. Como essas diferentes experiências moldaram sua visão sobre o papel do Judiciário na sociedade?
Aloysio Corrêa: São desafios que a carreira vai nos levando. Estive como desembargador no Rio de Janeiro por pouco tempo porque, dois anos depois, fui convocado para o TST. Fiquei durante seis anos convivendo com uma nova realidade: partir da instância ordinária para uma instância de índole extraordinária, onde o processo é examinado sob outro prisma, o da uniformização da jurisprudência. Quanto mais avançamos na carreira, mais encargos exercemos.
Antes de ir para o CNJ, presidi a sexta turma do TST e, em seguida, a Comissão de Jurisprudência e Precedentes Normativos, da qual fui membro por vários anos. No CNJ, lidei com a administração, modernização e fiscalização de todos os tribunais do país, quer sejam trabalhistas ou de outros ramos do Judiciário. Depois, voltei ao CSJT como corregedor-geral, vice-presidente e agora presidente do Conselho.
AMATRA1: O que mais o motiva hoje à frente do TST e do CSJT, especialmente diante dos desafios contemporâneos das relações de trabalho?
Aloysio Corrêa: Em primeiro lugar, a resposta da sociedade. O acervo processual é algo insuportável; não podemos continuar no Brasil com resíduos de 85 milhões de ações. A Justiça do Trabalho contribui com 4 milhões em resíduo. Isso nos motiva a buscar uma resposta mais eficiente, concreta e eficaz.
O grande desafio da minha gestão foi criar a cultura de precedentes como orientadores da justificabilidade, tornando-os qualificados e empoderando os tribunais regionais. Decisões em consonância com a repercussão geral do Supremo ou com as teses de uniformização do TST não comportam mais agravo, quando denegado o recurso de revista.
AMATRA1: O senhor receberá uma homenagem da AMATRA1 no próximo dia 5. Quais memórias ou vínculos com colegas e com a 1ª Região lhe vêm à mente?
Aloysio Corrêa: Alegria e gratidão. A amizade que se desenvolveu com vários colegas realmente se consolidou. A confiança em enfrentar os desafios naquela ocasião, quando presidia a AMATRA1. Essa amizade é permanente.
AMATRA1: Que mensagem o senhor deixaria para os magistrados mais jovens que estão iniciando a carreira na Justiça do Trabalho?
Aloysio Corrêa: Confia no Direito do Trabalho, na Justiça do Trabalho e, acima de tudo, na atividade judicial, para que a sociedade possa crer na atuação do juiz. O magistrado é um agente de Estado importante. Que tenha humildade para estar permanentemente atento à capacitação, ao estudo, e alegria em exercer a Justiça com a tranquilidade da vida.
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